Michel Chandeigne é editor, livreiro, tradutor, historiador, conferencista, foi professor de ciências naturais, tipógrafo e até caçador de meteoritos, mas foi a paixão pela história de Portugal que fez dele um dos nomes das letras lusófonas em Paris.

O francês nasceu em 1957, na região da Borgonha, mas foi em Paris que fundou em 1986 a Librairie Portugaise & Brésilienne e, em 1992, as Editions Chandeigne, ambas especializadas no mundo lusófono.

"Sou uma anomalia. Numa altura em que todas as livrarias estrangeiras desaparecem, tenho resistido e até crescido. Tem a ver comigo mas também com a cultura lusófona que interessa a muita gente", descreveu Michel Chandeigne à agência Lusa.

A livraria vai fazer 30 anos em 2016 e, há dois anos, mudou-se para a Place de l'Estrapade, "a vinte metros do Panteão", depois de muitos anos atrás da porta n.º 10 da rue Tournefort, também no 5.º bairro de Paris.

"Tinha 28 anos quando fundei a livraria. Comecei sem dinheiro, desenvolvi o projeto aos poucos de maneira totalmente antieconómica e um pouco absurda. Por isso é que tenho resistido. Fiz isto de maneira artesanal e adotei o caminho inverso à lógica de gestão", continuou.

Tudo começou entre 1982 e 1984, com a descoberta de Lisboa, quando foi professor de Ciências Naturais no liceu francês Charles Lepierre e descobriu "uma cidade extraordinária, uma língua incompreensível, uma cultura fascinante e muito desconhecida".

No regresso a Paris, Michel Chandeigne decidiu fundar uma livraria portuguesa, para "manter uma ligação com Lisboa", numa altura em que "Portugal entrava na Comunidade Europeia" e havia "um trabalho colossal a fazer" porque, "em 1982, só havia 12 traduções disponíveis sobre Portugal".

Entretanto, Michel Chandeigne tinha começado a traduzir obras de Eugénio de Andrade e Fernando Pessoa, através do qual se interessou pelos Descobrimentos, o tema que esteve na origem da criação das Editions Chandeigne, há 23 anos, com a franco-portuguesa Anne Lima.

"Comecei a traduzir para aprender a língua e uma das traduções foi parar às mãos de Robert Bréchon [especialista de Fernando Pessoa] que me convidou para cotraduzir 'A Mensagem', com Patrick Quillier. Descobri os poemas que falavam sobre a história de Portugal e, como era apaixonante e havia muito poucos livros sobre o tema em França, montei um projeto sobre os relatos dos Descobrimentos portugueses e propus a vários editores, que o recusaram. Por isso, criei a minha própria editora."

O resultado foi a criação da coleção Magellane (evocação de Magalhães), "com 50 títulos sobre os Descobrimentos, 35 ligados aos portugueses", ou seja, "a maior coleção no mundo que publica os relatos sobre as Grandes Navegações".

Sob o pseudónimo de Xavier de Castro, apresentou, transcreveu ou traduziu relatos de viagens como "Le voyage de Magellan (1519-1522), la relation de Pigafetta et les autres témoignages", um colosso de dois volumes que demorou cinco anos a ser feito e que é resumido por Chandeigne como a obra da sua vida e "a edição de referência mundial sobre Fernão de Magalhães".

Destaca ainda as versões de "Le naufrage du Santiago sur les Bassas da Índia" (1585), "Voyages de Jean Mocquet à Mozambique et Goa" (1607-1610) ou "Njinga reine d'Angola (1582-1663).

Graças ao trabalho da livraria e da editora, Michel Chandeigne considerou ter contribuído para a "explosão cultural de Portugal em França", ao lado de outros nomes como, por exemplo, "Joaquim Vital, da editora La Différence, que editou uma centena de livros de autores portugueses".

"Este trabalho cultural participou na mudança da imagem dos imigrantes portugueses em França. Para os franceses, eles estavam muito ligados à imigração dos anos 60 e 70, vinham de um país muito pobre, onde as mulheres se vestiam de preto, eles eram trolhas, elas porteiras, todos bons trabalhadores e católicos. Mas os franceses não imaginavam que se tratava de um grande país com uma cultura pluricontinental e plurissecular."

Este ano, as Editions Chandeigne vão, ainda, publicar a tradução de "A Aventura das Plantas e os Descobrimentos Portugueses", de José Mendes Ferrão, reeditar a tradução de "Os Maias", de Eça de Queiroz (pela quinta vez), e publicar "Les paravents Namban", sobre "os biombos luso-japoneses, que descrevem a chegada dos portugueses ao Japão".

Além de Portugal, Michel Chandeigne viajou e trabalhou em Moçambique, onde foi observador da ONU em 1995, em Cabo Verde e Goa, sobre os quais editou vários livros, e no Brasil, onde trabalhou para o comerciante de minerais e fósseis Alain Carion, com quem também fez várias expedições à procura de meteoritos.